Quem Foi Ester na Bíblia? A História e Porque É Relevante Hoje

Ester foi uma jovem judia órfã, criada pelo primo Mardoqueu na cidade persa de Susã, que se tornou rainha do império e usou essa posição para impedir o extermínio do seu povo. A sua história está no livro que leva o seu nome, no Antigo Testamento, e passa-se por volta do século V a.C., durante o reinado de Xerxes I (chamado Assuero no texto bíblico). Ester continua a ser relevante hoje porque mostra alguém comum a ser colocado num lugar de influência e a decidir usá-lo, mesmo com risco pessoal — e porque é a origem da festa judaica do Purim, celebrada ainda em pleno século XXI.

Resposta rápida

Quem era Jovem judia, órfã, criada pelo primo Mardoqueu
Outro nome Hadassa (nome hebraico); Ester é a forma persa
Onde viveu Susã, capital do Império Persa
Quando Século V a.C., no reinado de Assuero (Xerxes I)
O que fez Revelou ao rei que era judia e denunciou o plano de Hamã para exterminar o seu povo
Legado A festa do Purim, que recorda a libertação do povo judeu

A história de Ester, passo a passo

O livro tem dez capítulos e lê-se de uma só vez. Vale a pena conhecer a sequência, porque cada reviravolta prepara a seguinte.

1. O trono fica vago

O rei Assuero oferece um banquete prolongado em Susã e manda chamar a rainha Vasti para a apresentar aos convidados. Vasti recusa. Aconselhado pelos seus nobres, o rei destitui-a e ordena que se procure uma nova rainha em todo o império.

2. Ester é escolhida

Entre as jovens levadas para o palácio está Hadassa, também chamada Ester, prima de Mardoqueu, que a criara depois da morte dos pais. Por conselho dele, Ester não revela que é judia. O rei escolhe-a para rainha.

3. O decreto de Hamã

Hamã, promovido a principal conselheiro do rei, exige que todos se inclinem diante dele. Mardoqueu recusa. Hamã descobre que Mardoqueu é judeu e, em vez de se vingar apenas dele, obtém do rei um decreto que autoriza o extermínio de todos os judeus do império numa data escolhida por sorteio — o pur, que dará nome à festa.

4. “Quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?”

Mardoqueu faz chegar o decreto a Ester e pede-lhe que intervenha. Ester hesita: a lei persa punia com a morte quem se aproximasse do rei sem ser chamado. A resposta de Mardoqueu é a frase mais citada do livro:

“Porque, se de todo te calares neste tempo, socorro e livramento doutra parte virá para os judeus, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” (Ester 4:14)

Ester pede três dias de jejum a todos os judeus de Susã e decide agir: “E assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e se perecer, pereci” (Ester 4:16). Se quiser compreender melhor esta prática, temos um guia sobre o que é o jejum e como fazer.

5. A reviravolta

O rei recebe-a. Ester não denuncia Hamã de imediato: convida o rei e Hamã a dois banquetes e só no segundo revela que é judia e que o decreto condenaria também a própria rainha. Hamã é executado na forca que tinha preparado para Mardoqueu. Como um decreto persa não podia ser revogado, o rei emite um segundo decreto que autoriza os judeus a defenderem-se. O povo sobrevive.

6. A festa do Purim

Mardoqueu e Ester instituem dois dias anuais de celebração, com banquetes, alegria e o envio de presentes uns aos outros e aos pobres (Ester 9:20-22). É o Purim, que as comunidades judaicas continuam a celebrar no final do inverno, com a leitura pública do livro de Ester.

O livro de Ester: ficha técnica

Elemento Detalhe
Posição na Bíblia Antigo Testamento, entre os livros históricos (depois de Neemias)
Capítulos 10 nas Bíblias protestantes; com passagens adicionais nas Bíblias católicas e ortodoxas
Autor Anónimo; a tradição judaica associa-o a Mardoqueu
Personagens principais Ester, Mardoqueu, Assuero, Hamã, Vasti
Particularidade É o único livro do Antigo Testamento hebraico que não menciona o nome de Deus

Sobre as diferenças entre edições: as Bíblias católicas e ortodoxas incluem passagens adicionais em Ester — entre elas orações em que Deus é invocado explicitamente — que vêm da tradução grega dos Setenta. As Bíblias protestantes seguem o texto hebraico, mais curto. Não é uma questão de uma versão estar certa e a outra errada, mas de qual o texto-base que cada tradição adopta; explicámos esse critério em detalhe no artigo sobre os livros deuterocanónicos.

Porque é que Deus não é mencionado?

É a pergunta que mais surge nos grupos de estudo. No texto hebraico de Ester não aparece o nome de Deus, nem a palavra “oração”, nem qualquer milagre. E, ainda assim, o livro foi incluído no cânone.

A leitura mais comum entre estudiosos de várias tradições é que essa ausência é deliberada e faz parte da mensagem: a providência de Deus age através de coincidências que, somadas, deixam de parecer coincidências. Vasti recusa num momento exacto. Mardoqueu ouve por acaso uma conspiração contra o rei. O rei tem insónias numa noite específica e manda ler precisamente a crónica onde consta esse serviço nunca recompensado. Nenhum acontecimento é sobrenatural; o conjunto é difícil de atribuir ao acaso.

É também por isso que Ester fala tão bem a quem vive sem sinais espectaculares. O livro descreve fé em contexto de exílio, num império estrangeiro, sem templo à vista — uma situação bastante mais próxima do dia a dia da maioria de nós do que a abertura do Mar Vermelho.

Cinco razões para Ester ser relevante hoje

  1. A influência tem sempre um custo. Ester tinha acesso ao rei, mas usá-lo significava arriscar tudo. A pergunta de Mardoqueu — para que serve a posição que ocupa? — aplica-se a qualquer cargo, equipa ou família.
  2. A coragem não exclui o medo. Ester hesitou, expôs o risco e só depois avançou. O texto não a apresenta como destemida, mas como alguém que decidiu apesar do medo.
  3. Agir com método conta. Ester jejuou, esperou, preparou dois banquetes e escolheu o momento. Não foi impulso: foi preparação acompanhada de oração.
  4. A identidade acaba por vir à superfície. Ester esconde a origem durante anos, até chegar o momento em que esconder deixa de ser possível — e de ser correcto.
  5. O ódio organizado não é novidade. Hamã transforma uma ofensa pessoal num projecto de extermínio de um povo inteiro. O livro nomeia esse mecanismo com uma clareza incómoda.

Como estudar o livro de Ester

Sendo curto e narrativo, Ester é um excelente livro para começar um hábito de estudo. Uma abordagem simples que funciona bem:

  1. Leia os dez capítulos de uma vez, sem parar para anotar. São cerca de trinta minutos.
  2. Volte ao início e leia um capítulo por dia, registando em cada um quem decide o quê e qual a consequência.
  3. No fim, faça a lista das “coincidências” e veja o padrão que formam.

Para este tipo de leitura atenta, uma Bíblia com espaço para anotações ajuda bastante, porque permite escrever ao lado do texto em vez de num caderno separado. Se preferir um método mais estruturado, veja o nosso guia sobre como estudar a Bíblia sozinho. E se gosta de histórias do Antigo Testamento que lidam com decisões difíceis, leia também quem foi Jó e o que a sua história ensina.

Perguntas frequentes

Ester existiu de facto?

O livro situa-se num contexto persa historicamente verificável: Susã era capital, Xerxes I reinou entre 486 e 465 a.C. e vários detalhes administrativos correspondem ao que se sabe da corte persa. Não há, porém, registo de Ester ou de Hamã nas fontes persas conhecidas. Alguns historiadores leem o livro como relato histórico; outros, como narrativa construída sobre um contexto real. As duas leituras coexistem entre leitores crentes.

Qual é o versículo mais conhecido do livro de Ester?

Ester 4:14, pela pergunta final: “quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?”. É frequentemente citado em contextos de vocação e de responsabilidade, e por vezes resumido como “para um tempo como este”.

Porque é que Ester escondeu que era judia?

Por instrução de Mardoqueu. O texto não explica o motivo, mas a situação era de exílio: os judeus eram uma minoria num império estrangeiro e revelar a origem podia custar-lhe a posição ou a segurança. O silêncio mantém-se até ao momento em que passa a ser o maior risco.

O que é o Purim e quando se celebra?

É a festa judaica que recorda a libertação descrita em Ester. Celebra-se no dia 14 do mês de Adar do calendário hebraico, o que corresponde normalmente a Fevereiro ou Março. Inclui a leitura pública do livro de Ester, partilha de comida e ofertas aos mais necessitados.

Ester é um bom livro para quem está a começar a ler a Bíblia?

Sim, é um dos melhores. Tem dez capítulos, uma narrativa contínua com começo, meio e fim, e não exige conhecimento prévio de genealogias ou de leis. Só convém saber que se passa durante o exílio, depois do regresso parcial dos judeus a Jerusalém.

Em resumo

Ester é a história de uma órfã que chegou ao palácio e teve de escolher entre a sua segurança e o seu povo. Escolheu o povo, e a decisão salvou uma geração. É um livro curto, sem milagres e sem o nome de Deus — e talvez seja precisamente por isso que continua a ser lido por quem procura fé em circunstâncias comuns.

Para ler a história na íntegra e com notas que ajudem a situar o contexto persa, veja a nossa selecção de Bíblias. E se procura leituras sobre coragem e carácter no feminino, dê uma olhada em Corajosas — Os Contos das Princesas Nada Encantadas ou nos nossos devocionais.

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