O Que São os Livros Deuterocanónicos? Lista e Explicação

Os livros deuterocanónicos são sete livros do Antigo Testamento — Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus — a que se juntam alguns acréscimos aos livros de Ester e de Daniel. Estão presentes na Bíblia católica e nas Bíblias ortodoxas, mas não nas Bíblias protestantes. O nome significa literalmente "segundo cânone" e refere-se ao facto de a sua aceitação ter sido debatida durante mais tempo do que a dos restantes livros. É exatamente por causa deles que uma Bíblia católica tem 73 livros e uma Bíblia protestante tem 66.

Resposta rápida

Pergunta Resposta
Quantos são? 7 livros completos + acréscimos a Ester e Daniel
Onde aparecem? Sempre no Antigo Testamento, nunca no Novo
Que Bíblias os incluem? Católicas e ortodoxas (estas com livros adicionais)
Que Bíblias não os incluem? Protestantes e evangélicas (ARC, ARA, NAA, NVI, NVT, NTLH, King James)
Outro nome comum "Apócrifos" (designação usada na tradição protestante)
Quando foram escritos? Sobretudo entre os séculos III e I a.C.

Quais são os livros deuterocanónicos?

A lista clássica é curta e fácil de memorizar. Estes são os sete livros, com o assunto de cada um:

Livro Género De que trata
Tobias Narrativa Uma família judaica no exílio, uma viagem, um casamento e o anjo Rafael. Um dos textos mais domésticos e ternos da Bíblia.
Judite Narrativa Uma viúva enfrenta sozinha o general que cerca a sua cidade. Coragem e oração em confronto direto com o poder militar.
Sabedoria Sapiencial Escrito em grego, provavelmente em Alexandria. Reflete sobre a justiça, a imortalidade e a insensatez da idolatria.
Eclesiástico (Sirácida) Sapiencial Conselhos práticos sobre amizade, dinheiro, família e trabalho. Muito próximo, no tom, do livro de Provérbios.
Baruc Profético Atribuído ao secretário do profeta Jeremias. Inclui, como capítulo 6, a chamada Carta de Jeremias.
1 Macabeus Histórico A revolta judaica contra a helenização forçada, no século II a.C. Fonte histórica de grande valor.
2 Macabeus Histórico Uma versão mais teológica dos mesmos acontecimentos, com o célebre episódio dos sete irmãos mártires.

A estes juntam-se os acréscimos: as partes gregas do livro de Ester e três secções de Daniel — a Oração de Azarias e o Cântico dos Três Jovens, a história de Susana e o episódio de Bel e o Dragão. Não são livros independentes; aparecem integrados nos livros correspondentes.

Porque se chamam "deuterocanónicos"?

A palavra vem do grego deuteros (segundo) e kanon (regra, medida). Não quer dizer "de segunda categoria" nem "menos importantes": para quem os aceita, têm exatamente a mesma autoridade que os restantes. O termo foi popularizado no século XVI pelo teólogo Sisto de Sena e descreve apenas a ordem cronológica do reconhecimento. Os livros protocanónicos ("primeiro cânone") nunca foram contestados; estes sete estiveram em discussão durante séculos.

Na tradição protestante o mesmo conjunto costuma chamar-se apócrifos, palavra que significa "escondidos" ou "ocultos". É importante não confundir estes textos com os chamados "evangelhos apócrifos" (Evangelho de Tomé, Evangelho de Judas e outros), que são obras muito posteriores e que nenhuma tradição cristã aceita como Escritura.

Porque estão em umas Bíblias e não noutras?

A resposta está numa diferença de listas com mais de dois mil anos.

A Septuaginta e a Bíblia hebraica

A partir do século III a.C., a comunidade judaica de Alexandria traduziu as Escrituras para grego. Essa tradução — a Septuaginta — acabou por incluir livros que circulavam nessa altura e que não constavam da lista hebraica que viria a fixar-se mais tarde. Foi a Septuaginta que a Igreja primitiva usou maioritariamente: quando os autores do Novo Testamento citam o Antigo, seguem muitas vezes o texto grego.

A posição católica

A Igreja Católica considera estes sete livros plenamente inspirados. São Jerónimo, ao traduzir a Vulgata latina no século IV, manifestou reservas quanto ao seu estatuto, mas incluiu-os. Vários concílios locais os listaram, e o Concílio de Trento, na sessão de 8 de abril de 1546, fixou definitivamente o cânone de 73 livros, retomando a lista já aprovada no Concílio de Florença.

A posição protestante

Os reformadores do século XVI defenderam o regresso à lista hebraica do Antigo Testamento. Lutero não eliminou estes textos: colocou-os num apêndice separado da sua Bíblia alemã de 1534, com a nota de que não eram tidos como iguais às Sagradas Escrituras, mas eram úteis e bons de ler. Durante quase três séculos, muitas Bíblias protestantes — incluindo edições antigas de João Ferreira de Almeida — continuaram a imprimi-los nesse apêndice. Foi já no século XIX que as sociedades bíblicas deixaram de os incluir, sobretudo por razões de custo e de política editorial, e as edições atuais passaram a sair sem eles.

As igrejas ortodoxas

As Bíblias ortodoxas vão mais longe e acrescentam textos que nem as católicas incluem, como 3 Macabeus, 1 Esdras, a Oração de Manassés e o Salmo 151. A Igreja Etíope tem um cânone ainda mais amplo. Ou seja: a fronteira não é simplesmente "católicos contra protestantes".

O que se encontra nestes livros

Independentemente da posição de cada tradição sobre a sua autoridade, o valor histórico e literário destes textos é reconhecido de forma alargada. Alguns exemplos concretos:

  1. A festa do Hanucá. 1 Macabeus descreve a purificação e nova dedicação do Templo, acontecimento que está na origem da festa que os judeus continuam a celebrar. É também o pano de fundo da cena descrita em João 10:22.
  2. O período entre os Testamentos. Os Macabeus preenchem os cerca de quatro séculos que separam Malaquias do nascimento de Jesus — sem eles, é difícil perceber quem eram os fariseus, os saduceus ou os zelotas.
  3. Sabedoria prática. O Eclesiástico contém páginas notáveis sobre a amizade, o uso do dinheiro, o trato com os pais idosos e a educação dos filhos.
  4. Oração pelos defuntos. A passagem de 2 Macabeus 12 é um dos fundamentos bíblicos invocados pela tradição católica para a oração pelos falecidos — e uma das razões pelas quais a discussão sobre estes livros nunca foi meramente académica.

Vale a pena sublinhar um ponto de equilíbrio: as duas posições apoiam-se em critérios sérios. Quem defende o cânone mais curto invoca a lista hebraica e o facto de o Novo Testamento nunca citar explicitamente estes livros como "Escritura". Quem defende o cânone mais longo invoca o uso da Septuaginta pela Igreja primitiva e a prática continuada de séculos. Nenhum dos lados chegou à sua conclusão por descuido.

Como saber se a sua Bíblia os inclui

É simples de verificar em menos de um minuto:

  1. Abra o índice, no início do volume.
  2. Procure, entre Ester e Job, os nomes Tobias e Judite. Se lá estiverem, a sua Bíblia inclui os deuterocanónicos.
  3. Em alternativa, veja se existe 1 Macabeus logo antes de Isaías (ou, nalgumas edições, no fim do Antigo Testamento).
  4. Confirme a sigla da tradução na capa ou na folha de rosto. Se for ARC, ARA, NAA, NVI, NVT, NTLH ou King James, é uma edição protestante e não os inclui.

Praticamente todas as traduções disponíveis na nossa coleção de Bíblias seguem a tradição protestante de 66 livros. Se está a começar e ainda hesita entre versões, o nosso guia das traduções em português compara ARC, ARA, NAA, NVI, NVT e NTLH lado a lado. Para leitura corrida do Antigo Testamento, uma edição de texto limpo como a Bíblia NAA de capa dura costuma ser a escolha mais confortável; quem prefere a linguagem clássica encontra-a nas edições da Almeida Revista e Corrigida.

Perguntas frequentes

Os deuterocanónicos fazem parte do Novo Testamento?

Não. Todos pertencem ao Antigo Testamento. O Novo Testamento tem 27 livros e é exatamente o mesmo em todas as tradições cristãs — católica, ortodoxa e protestante. Não há qualquer divergência quanto a esta parte da Bíblia.

É pecado ler os livros deuterocanónicos?

Não. Mesmo nas tradições que não os consideram Escritura inspirada, a leitura sempre foi vista como legítima e proveitosa — foi esse precisamente o critério de Lutero ao mantê-los num apêndice. A diferença está em usá-los, ou não, para estabelecer doutrina.

Qual é a diferença entre deuterocanónicos e apócrifos?

São o mesmo conjunto de textos com nomes diferentes conforme a tradição: "deuterocanónicos" no uso católico, "apócrifos" no uso protestante. Atenção, porém: na terminologia católica, "apócrifos" designa outra coisa — obras como o Evangelho de Tomé, que nenhuma Igreja aceita.

Jesus citou algum destes livros?

Não existe nos Evangelhos nenhuma citação explícita introduzida por fórmulas como "está escrito". Há, no entanto, ecos e alusões apontados por vários estudiosos, sobretudo ao Eclesiástico e ao livro da Sabedoria. O peso a dar a essas semelhanças é justamente um dos pontos em discussão.

Preciso de uma Bíblia com estes livros para estudar a fundo?

Não é indispensável. O que faz diferença real no estudo são as ferramentas de apoio — referências cruzadas, notas de rodapé e introduções a cada livro. Como explicámos no artigo sobre quantos livros tem a Bíblia, o essencial é conhecer bem a estrutura do texto que tem em mãos.

Em resumo

Os deuterocanónicos são sete livros e alguns acréscimos que separam os 73 livros de uma Bíblia católica dos 66 de uma Bíblia protestante. A diferença não nasceu de um capricho: vem de duas listas antigas, a hebraica e a grega, e de séculos de discussão honesta entre cristãos que liam os mesmos textos e chegaram a conclusões diferentes.

Seja qual for a tradição em que se encontra, o convite é o mesmo que Paulo deixou a Timóteo: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça" (2 Timóteo 3:16). Conhecer bem a Bíblia que tem em casa é o primeiro passo. Se ainda está à procura da sua — ou de uma para oferecer —, veja a nossa seleção de Bíblias e escolha com calma. E se quiser continuar a explorar o vocabulário e a história do texto bíblico, comece por perceber o que significa realmente dizer "Amém".

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