Livros de C.S. Lewis: Quais Ler e Por Onde Começar
Share
Se nunca leu C.S. Lewis e quer começar bem, comece por Cristianismo Puro e Simples: é curto, foi escrito para ser ouvido na rádio e explica o essencial da fé cristã sem pressupor formação teológica. Se prefere ficção, o ponto de entrada é O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Se está a atravessar uma perda, vá direto a Uma Dor em Observação. E se gosta de humor afiado, Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz é o mais divertido dos seus livros. Lewis escreveu para públicos muito diferentes — o segredo é não começar pelo livro errado.
Resposta rápida: qual livro para si
| Se procura... | Comece por |
| Perceber o que os cristãos creem | Cristianismo Puro e Simples |
| Uma história para ler com os filhos | O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa |
| Consolo depois de uma perda | Uma Dor em Observação |
| Resposta à pergunta "porque sofremos?" | O Problema do Sofrimento |
| Satíra sobre a tentação do dia a dia | Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz |
| Compreender o amor humano | Os Quatro Amores |
Quem foi C.S. Lewis
Clive Staples Lewis (1898–1963) nasceu em Belfast e passou a vida adulta a ensinar literatura medieval e renascentista em Oxford e, mais tarde, em Cambridge. Foi ateu convicto durante anos, sobretudo depois de perder a mãe aos nove anos e de combater na Primeira Guerra Mundial. Converteu-se ao cristianismo em 1931, aos 32 anos, e teve nessa mudança um papel decisivo o amigo e colega J.R.R. Tolkien — autor de O Senhor dos Anéis —, com quem discutia até de madrugada se os Evangelhos eram "mais um mito" ou o mito que aconteceu de facto.
Essa biografia explica o tom dos seus livros. Lewis não escreve como quem nunca duvidou: escreve como quem esteve do outro lado e conhece os argumentos de cor. É por isso que continua a ser lido por crentes e não crentes, quase um século depois.
As obras essenciais, uma a uma
Cristianismo Puro e Simples
Nasceu de palestras que Lewis deu na rádio BBC durante a Segunda Guerra Mundial, a um país sob bombardeamento. Daí a clareza: cada capítulo tinha de fazer sentido à primeira, ouvido uma única vez. O livro parte da noção comum de bem e mal para chegar à fé cristã, e faz questão de ficar naquilo que é comum às grandes tradições cristãs, sem entrar em disputas denominacionais. É o título que mais se oferece a quem está a perguntar.
As Crónicas de Nárnia
Sete volumes publicados entre 1950 e 1956. São histórias infantis a sério — nunca condescendentes — e ao mesmo tempo uma leitura em que adultos encontram camadas que as crianças não veem. Lewis recusava chamar-lhes alegoria; preferia dizer que imaginava como seria a encarnação num mundo com leões falantes. Funcionam bem como leitura em voz alta em família, um capítulo por noite.
Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz
Um demónio experiente escreve ao sobrinho principiante com conselhos sobre como afastar um homem comum de Deus. A inversão de perspetiva é o truque: como o narrador é o tentador, tudo o que ele considera vitória é aquilo que devemos evitar. É mordaz, curto, e desconcertantemente atual na parte sobre distração e vaidade.
O Problema do Sofrimento
A tentativa intelectual de Lewis de responder à objeção mais antiga contra a fé: se Deus é bom e poderoso, porque existe dor? Escrito em 1940, é argumentativo e sereno. Leia-o quando a pergunta é sua, mas a ferida ainda não é.
Uma Dor em Observação
Vinte anos depois, Lewis perdeu a mulher, Joy Davidman, para o cancro. O diário que escreveu nesses meses é o oposto do livro anterior: sem argumentos, sem consolo fácil, com raiva e dúvida à vista. Publicou-o inicialmente sob pseudónimo. Em algumas edições portuguesas aparece como Anatomia de uma Dor. É o livro que se dá a quem está de luto — precisamente porque não tenta arrumar a dor. Sobre este tema, escrevemos também sobre o Salmo 23 versículo a versículo, onde o pastor não evita o vale: atravessa-o.
Os Quatro Amores
Lewis distingue quatro formas de amar: a afeição familiar, a amizade, o eros e a caridade. É talvez o seu livro mais útil para a vida prática — relacionamentos, casamento, parentalidade — e o que melhor mostra a sua capacidade de descrever o que toda a gente sente mas ninguém tinha nomeado.
Ordem de leitura sugerida
- Cristianismo Puro e Simples — estabelece o vocabulário e o modo de pensar de Lewis.
- Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz — leve, rápido, e mostra o mesmo pensamento em modo satírico.
- As Crónicas de Nárnia — sozinho ou em família, uma pausa na argumentação.
- Os Quatro Amores — aplicação à vida concreta.
- O Problema do Sofrimento e depois Uma Dor em Observação — nesta ordem, porque o segundo é a prova a que o primeiro foi submetido.
- Surpreendido pela Alegria — a autobiografia da conversão, que faz muito mais sentido depois de conhecer a obra.
Nárnia: por que ordem ler os sete livros?
Há duas ordens possíveis e a discussão é antiga entre leitores. A ordem de publicação preserva as surpresas tal como Lewis as concebeu; a ordem cronológica segue a história interna de Nárnia e é a adotada por várias edições modernas.
| Ordem de publicação | Ordem cronológica |
| 1. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa | 1. O Sobrinho do Mágico |
| 2. O Príncipe Caspian | 2. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa |
| 3. A Viagem do Caminheiro da Alvorada | 3. O Cavalo e o Seu Rapaz |
| 4. A Cadeira de Prata | 4. O Príncipe Caspian |
| 5. O Cavalo e o Seu Rapaz | 5. A Viagem do Caminheiro da Alvorada |
| 6. O Sobrinho do Mágico | 6. A Cadeira de Prata |
| 7. A Última Batalha | 7. A Última Batalha |
Conselho prático: se é a primeira vez, siga a ordem de publicação. O Sobrinho do Mágico explica origens que são muito mais saborosas quando já se conhece o guarda-roupa.
Porque continua a ser lido hoje
Três razões concretas. Primeira: Lewis escreve para quem não está convencido. Não pressupõe que o leitor concorda — pressupõe que o leitor pensa. Isso torna-o útil para quem quer responder a perguntas de amigos e colegas, no espírito de 1 Pedro 3:15: "estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós".
Segunda: usa imagens em vez de jargão. Onde um manual escreveria "santificação", Lewis descreve uma casa a ser reconstruída enquanto se vive dentro dela. Terceira: nunca finge. O mesmo autor que argumentou sobre o sofrimento escreveu, após enviuvar, que Deus lhe parecia uma porta fechada. Essa honestidade é rara e envelhece bem.
Se este modo de escrever — ensaio pessoal, imagem concreta, nenhuma condescendência — lhe agrada, encontrará algo semelhante em Corra com os Cavalos, de Eugene H. Peterson, e na nossa seleção mais alargada de livros cristãos.
Perguntas frequentes
Qual é o livro mais fácil de C.S. Lewis para começar?
Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz, pelo formato: são cartas curtas, independentes, que se podem ler uma por dia. Cristianismo Puro e Simples é igualmente acessível, mas exige um pouco mais de concentração seguida.
As Crónicas de Nárnia são só para crianças?
Não. Foram escritas a pensar em crianças, mas Lewis defendia que uma história infantil que só agrada a crianças é uma má história infantil. Muitos adultos leem-nas pela primeira vez depois dos trinta e reconhecem temas que em miúdos lhes passaram ao lado.
Lewis era católico ou protestante?
Era anglicano, e fez do respeito por todas as tradições cristãs um princípio de escrita. O próprio título Cristianismo Puro e Simples aponta para o que é comum a essas tradições, deixando de fora as questões que as separam. É uma das razões pelas quais é lido em meios católicos, ortodoxos e evangélicos.
C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien eram amigos?
Eram, e pertenciam ao mesmo grupo literário em Oxford, os Inklings, onde liam em voz alta os textos que estavam a escrever. Tolkien teve um papel importante na conversão de Lewis, embora mais tarde tenha sido crítico das Crónicas de Nárnia, que considerava demasiado ecléticas na mistura de mitologias.
Preciso de formação teológica para o ler?
Não. Lewis escrevia deliberadamente para o leitor comum e traduzia os termos técnicos sempre que os usava. Se quiser um enquadramento antes de começar, veja o nosso artigo sobre o que é teologia e para que serve.
Por onde começar hoje
Escolha um título, não seis. A biblioteca de Lewis é grande e a tentação de comprar tudo de uma vez costuma acabar com uma pilha por abrir. Comece pelo livro que responde à pergunta que traz agora — e leia-o até ao fim.
Para acompanhar a leitura com uma rotina diária mais curta, veja a nossa seleção de devocionais; e se é sobretudo a ficção de Lewis que o atrai, a coleção de ficção cristã é o passo seguinte natural.